Reeleito por unanimidade para comandar a Câmara até 2028 e primeiro na linha sucessória caso o TSE casse a chapa da prefeita, o presidente do Legislativo diz que nunca viu tantos secretários convocados e avisa: “a chapa é quente todo dia”.
O presidente da Câmara Municipal de Campo Grande, Epaminondas Vicente Silva Neto, o Papy (PSDB), escolheu as palavras com cuidado. Não citou o nome da prefeita Adriane Lopes (PP). Não precisou. Em vídeo de menos de um minuto que circula nas redes, recortado de uma entrevista ao Café & Política, grupo de jornalistas que se reúne para sabatinar nomes da vida pública de Campo Grande, ele afirma que a Câmara aumentou em 50% as indicações ao Executivo “porque o resultado está sendo mal”.
A frase seguinte é a que fica: “Campo Grande tem jeito, meu irmão, e não tá difícil de arrumar.” Dita por quem, em tese, poderia assumir a prefeitura se a Justiça Eleitoral afastar Adriane e a vice, soa menos como avaliação de fiscal e mais como plataforma.
O recado chega uma semana depois de Papy ser reconduzido à presidência da Casa pelos 29 vereadores, em 1º de outubro, e quatro meses depois de a Polícia Federal deflagrar uma operação sobre compra de votos na campanha que reelegeu a prefeita em 2024.
O recado
Papy usa números para medir a temperatura. Em três mandatos de vereador, diz, nunca tinha visto secretário ser convocado à Câmara com a frequência atual. Pela conta dele, o de Obras foi quatro vezes; o de Finanças, três; o de Saúde, “mais de três vezes”. “Nunca tinha visto isso.”
Em seguida, se defende de quem cobra mais barulho. “Eu posso não ser o cara que mais grita, faz vídeo na internet para lacrar e tal. Mas, meu irmão, se você acompanhar meu trabalho no bastidor, a chapa é quente todo dia.” O enfrentamento ao Executivo, segundo ele, “nem sempre se faz fazendo um vídeo selfie na internet”.
A fala tem dois destinatários. O primeiro é a prefeitura, a quem ele atribui mau desempenho. O segundo são colegas e críticos que leem a discrição do presidente da Câmara como alinhamento com Adriane. A ambos ele responde com a mesma imagem: o conflito existe, só que longe das câmeras.
O fecho é de quem se apresenta para algo maior. “Antes de me preocupar com a minha carreira política, eu me preocupo em ser o presidente e dar um resultado para Campo Grande.” E, dirigindo-se a Guilherme, um dos jornalistas do Café & Política: “Campo Grande tem jeito, meu irmão, e não tá difícil de arrumar.”
O pano de fundo
O tom importa porque mudou. No início da legislatura, em entrevista ao Correio do Estado, Papy descrevia a relação com Adriane como “institucional, republicana, de independência” e dizia ver na prefeita “uma vontade de fazer”. Na mesma conversa, admitiu o projeto: “Quem sabe, lá na frente, se as coisas convergirem, posso ser candidato a prefeito.”
De lá para cá, as coisas convergiram mais rápido do que o calendário de 2028.
O Executivo deve ligar o alerta?
Deve. Não porque Papy tenha rompido, porque não rompeu, mas porque mudou de posição no tabuleiro. Ele fala agora como fiscal, como reeleito e como sucessor possível, e cada um desses papéis pesa no Paço.
O fiscal. Ao contar convocações de secretários e dizer que o resultado “está sendo mal”, Papy registra publicamente uma avaliação negativa da gestão. Presidente de Câmara que faz isso costuma estar preparando terreno: para CPI, para endurecer o orçamento ou para não ser associado ao desgaste da prefeita.
O reeleito. Com 29 votos de 29, ele não depende da prefeitura para manter o comando da Casa até 2028. A unanimidade tira do Executivo a principal moeda de troca com um presidente de Legislativo.
O sucessor possível. Se o TSE reverter a decisão do TRE-MS, a cadeira é dele. “Campo Grande tem jeito e não tá difícil de arrumar” é frase de quem se coloca à disposição, ainda que diga pensar primeiro na presidência da Câmara e depois na carreira.
Há atenuantes. Papy não citou Adriane, não anunciou CPI nem rompimento e insiste que o enfrentamento se dá “no bastidor”. Parte do recado mira colegas que criticam a prefeitura nas redes, não a prefeita. E o trecho que circula nas redes é um recorte de menos de um minuto de uma conversa mais longa no Café & Política.
No Paço, o que vale acompanhar daqui em diante:
- se a CPI da Saúde sai do “radar” e ganha assinaturas;
- o tom das próximas convocações de secretários, especialmente Obras, Finanças e Saúde;
- a tramitação do orçamento de 2027 e de eventuais pedidos de suplementação;
- a pauta do TSE sobre o recurso que pede a cassação da chapa.
Por ora, a leitura mais segura é esta: Papy ainda não é oposição, mas já deixou de ser fiador. E fez questão de que isso ficasse gravado.
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