Vistoria encontrou oncológicos sem estoque; hospital diz que situação está regularizada. Em 2026, consórcio presidido pelo governador registrou cerca de R$ 430 milhões em preços de remédios oncológicos

Governo Saúde

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) abriu inquérito civil para apurar se o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS), em Campo Grande, mantém regular o abastecimento de medicamentos usados na quimioterapia. A apuração, da 32ª Promotoria de Justiça da Saúde Pública, com apoio do Núcleo de Apoio Especial à Saúde (Naes), foi divulgada em 9 de outubro de 2026. O hospital confirmou que houve desabastecimento em julho, mas afirma que o problema foi pontual e já está resolvido.

O que o MP encontrou

Segundo o MPMS, a investigação começou com informações de que sessões de quimioterapia estavam sendo suspensas ou adiadas por falta de medicamentos e insumos. Uma vistoria técnica no hospital encontrou medicamentos oncológicos com estoque zerado e outros com cobertura de poucos dias. Na mesma inspeção, a equipe registrou processos de compra e reposição em andamento.

A promotoria requisitou ao HRMS dados atualizados sobre os estoques, o andamento das aquisições, os impactos nos atendimentos e as medidas para evitar novos episódios. Também marcou uma reunião de trabalho com representantes do hospital e da Secretaria de Estado de Saúde (SES). A nota do MPMS cita os autos nº 06.2026.00000980-1. O MPMS não informou quais medicamentos faltaram, quantas sessões foram afetadas nem quantos pacientes foram atingidos. A abertura do inquérito não significa que o órgão tenha concluído que houve irregularidade.

O que diz o hospital

Em nota divulgada ao site Diário Digital em 9 de outubro, o HRMS afirmou: “O HRMS informa que o abastecimento de medicamentos oncológicos está regularizado. Em julho, houve um desabastecimento pontual de medicamento em razão de questões relacionadas ao fornecimento. Não houve prejuízo ao protocolo terapêutico dos pacientes.” A nota não diz qual medicamento faltou nem por quanto tempo.

A versão do hospital e a do MPMS não coincidem em um ponto: o Ministério Público registra relatos de sessões suspensas ou adiadas, enquanto o hospital diz que o protocolo dos pacientes não foi prejudicado. O inquérito deve esclarecer se houve interrupção de tratamentos.

Não é a primeira vez

Em maio de 2024, o Campo Grande News mostrou acompanhantes de pacientes relatando sessões de quimioterapia canceladas no HRMS pela falta do cloridrato de mitoxantrona, quimioterápico usado em casos como câncer de mama, leucemias, linfomas e câncer de próstata. Na ocasião, um paciente de 72 anos, em tratamento a cada 15 dias, teve a sessão cancelada por telefone cerca de três semanas antes da reportagem. O hospital confirmou a falta, disse que “o estoque já foi normalizado e o atendimento restabelecido” e reconheceu “uma demanda significativamente alta nos serviços ambulatoriais”.

Milhões em atas, nenhuma com o nome do hospital

Publicações no Diário Oficial do Estado em 2026 mostram compras e registros de preços de remédios oncológicos que somam centenas de milhões de reais. O maior é do Consórcio Interestadual de Desenvolvimento do Brasil Central, presidido pelo governador Eduardo Riedel (PP): 24 atas de registro de preços, que somam cerca de R$ 430,9 milhões, resultantes do Pregão Eletrônico nº 90.001/2026, publicadas em 10 de junho. Os medicamentos se destinam a ordens judiciais e a demandas das secretarias de saúde dos estados consorciados, para centros de alta complexidade em oncologia (Cacon e Unacon).

O governo do Estado, pela Secretaria de Administração (SAD), também registrou em setembro três atas de R$ 5,34 milhões para oncológicos como cabozantinibe, pertuzumabe e pegaspargase, destinados a ações judiciais, e prorrogou atas de R$ 2,9 milhões, das quais R$ 2,34 milhões são do antineoplásico abemaciclibe, para hospitais estaduais. Em julho, a SES empenhou R$ 168.395,40 para comprar blinatumomabe, remédio de alto custo.

Nenhuma dessas publicações, nas reportagens consultadas, cita o Hospital Regional como destino. Atas de registro de preços não são compras: fixam preço e fornecedor para pedidos futuros. Saber quanto disso chegou ao HRMS, e quando, é uma das perguntas enviadas à SES.

Outra apuração no hospital

Na mesma semana, o MPMS divulgou outro inquérito civil sobre o HRMS, sobre o Centro de Referência em Imunobiológicos Especiais (Crie). A inspeção apontou limites de estrutura e de equipamentos e falta de profissionais diante do aumento da procura. A direção do hospital disse que coordenação e recursos são da gestão estadual; a SES afirmou que o atendimento segue normalmente.

Próximos passos

O HRMS deve responder às requisições do MPMS e participar da reunião com a SES, ainda sem data divulgada. Ao fim do inquérito, a promotoria pode arquivar o caso, propor um acordo ou recorrer à Justiça.

Outro lado

Procurados pela reportagem, a Secretaria de Estado de Saúde e o Hospital Regional ainda não responderam aos questionamentos. O espaço segue aberto.

Fontes: Ministério Público de MS (7 e 9/10/2026); nota do HRMS ao Diário Digital (9/10/2026); Campo Grande News (14/05/2024); Diário Oficial do Estado de MS, conforme Midiamax (10/06 e 28/09/2026), Hora MS (14/09/2026) e RCN67 (23/07/2026).

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