Sem os R$ 1,28 bilhão em empréstimos contratados em 2026, o saldo do Estado até agosto seria negativo. O resultado primário, indicador que a Lei de Responsabilidade Fiscal usa para medir o esforço fiscal, mostra déficit quase quatro vezes maior que a meta prevista para o ano inteiro.
O Governo de Mato Grosso do Sul fechou os oito primeiros meses de 2026 com um “superávit orçamentário” de R$ 200,7 milhões, segundo o Relatório Resumido da Execução Orçamentária (RREO) publicado no Diário Oficial de 29 de setembro. O número circulou na imprensa como sinal de contas no azul.
Os próprios relatórios da Secretaria de Fazenda (Sefaz) contam outra história. O Conectados no MS analisou, página por página, o RREO do 4º bimestre e o Relatório de Gestão Fiscal (RGF) do 2º quadrimestre. Dentro da receita que gerou o superávit estão R$ 1,283 bilhão em operações de crédito, ou seja, dinheiro emprestado que terá de ser devolvido com juros. Retirado o empréstimo, as despesas superam as receitas em R$ 1,08 bilhão.
A conta que gerou o “superávit”
O número oficial sai de uma subtração simples, feita no Anexo 1 do RREO (Balanço Orçamentário). De janeiro a agosto, o Estado registrou receita total de R$ 19.670.823.328,75.

No mesmo período, as despesas liquidadas somaram R$ 19.470.093.774,17. A diferença entre as duas linhas é de R$ 200.729.554,58, valor apresentado como superávit orçamentário.

A conta está correta do ponto de vista contábil. O problema é o que entra do lado da receita. A Lei 4.320/1964 manda registrar empréstimos como “receita de capital”, e por isso eles somam na mesma coluna que o ICMS, o IPVA e os repasses federais. Na prática, é como uma família que gasta mais do que ganha, pega um empréstimo no banco e diz que fechou o mês no azul.

R$ 1,28 bilhão emprestado em oito meses
Na mesma tabela, poucas linhas acima do total, aparecem as “Operações de Crédito”: R$ 1.283.394.250,01 até agosto. Quase tudo veio de bancos no país (R$ 1,28 bilhão no mercado interno). O externo somou R$ 2,6 milhões.

O valor é seis vezes maior que o superávit anunciado. Também supera em mais do que o dobro a previsão inicial do orçamento para empréstimos em 2026, que era de R$ 596,2 milhões. Ao longo do ano, essa previsão foi elevada para R$ 1,58 bilhão.
O efeito aparece no Relatório de Gestão Fiscal. O saldo da dívida com empréstimos internos passou de R$ 769,8 milhões em dezembro de 2025 para R$ 2,01 bilhões em agosto, alta de 161%. A dívida consolidada total subiu de R$ 10,29 bilhões para R$ 11,58 bilhões (+12,5%).


Saldo de empréstimos internos cresceu 161% desde dezembro. Arte: Conectados no MS
A dívida líquida passou de 24,96% para 27,10% da Receita Corrente Líquida. O nível ainda está longe do teto de 200% fixado pelo Senado. O que chama atenção é a velocidade da alta, concentrada no primeiro semestre de um ano eleitoral.
O indicador que a lei usa mostra déficit
A Lei de Responsabilidade Fiscal tem um termômetro próprio para separar arrecadação de endividamento: o resultado primário. Ele compara o que o Estado arrecada com o que gasta, deixando de fora juros e empréstimos. É por esse indicador que a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) fixa a meta fiscal do ano.
No Anexo 6 do mesmo RREO, o resultado primário de janeiro a agosto aparece negativo em R$ 813.421.016,08 (critério “acima da linha”, sem a previdência). A meta da LDO para 2026 inteiro admite déficit de até R$ 207.264.100,00.

Em oito meses, o déficit já é 3,9 vezes o limite previsto para o ano. E piorou: em junho, o mesmo indicador estava em R$ 459,8 milhões negativos. Só em julho e agosto, o buraco cresceu R$ 353,6 milhões.

Déficit primário acumulado já é 3,9 vezes a meta da LDO para 2026. Arte: Conectados no MS
Há uma ressalva técnica. Pelo critério “abaixo da linha”, que mede a variação da dívida, o déficit primário é menor: R$ 425,5 milhões. Mesmo nessa conta, o resultado já é o dobro da meta anual. O governo ainda tem quatro meses para reverter o quadro.
Folha acima do limite prudencial e previdência no vermelho
Os mesmos relatórios mostram onde a pressão está. A despesa com pessoal do Executivo chegou a 47,02% da Receita Corrente Líquida no 2º quadrimestre (R$ 10,87 bilhões em 12 meses). O limite prudencial da LRF é de 46,55% e o máximo, 49%. É o segundo quadrimestre seguido acima do prudencial: em abril, o índice estava em 46,62%.
Acima desse patamar, o artigo 22 da LRF proíbe conceder reajustes (exceto a revisão geral anual), criar cargos, fazer novas nomeações (salvo reposições em saúde, educação e segurança) e pagar hora extra. A folga até o teto de 49% é de R$ 458 milhões.
A previdência também pesa. Até agosto, o regime dos servidores civis (RPPS) teve déficit de R$ 1,02 bilhão, e o Tesouro precisou aportar R$ 967 milhões. No sistema dos militares, o déficit de R$ 590,9 milhões já superou o previsto para o ano inteiro (R$ 587,4 milhões), mesmo depois de o orçamento da área ter sido reforçado em R$ 122 milhões.
Os dados chegam às vésperas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, em que o governador Eduardo Riedel disputa a reeleição. Os relatórios foram publicados no Diário Oficial em 29 de setembro e o superávit foi o número que ganhou destaque na divulgação.
Outro lado
O Conectados no MS procurou a Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz) para comentar o peso das operações de crédito no resultado, o déficit primário acima da meta e as medidas para reenquadrar a despesa com pessoal. O espaço segue aberto para manifestação.
Como fizemos
Todos os números foram retirados dos relatórios oficiais publicados pela Sefaz e pelo Diário Oficial do Estado de 29/09/2026. Os prints são reproduções das tabelas originais, com marcação em vermelho do Conectados no MS. O “saldo sem empréstimos” é a receita total menos as operações de crédito, menos as despesas liquidadas: R$ 19,67 bi − R$ 1,28 bi − R$ 19,47 bi = −R$ 1,08 bi.
Fontes
- RREO 4º bimestre 2026 (Resolução Sefaz nº 3.524), Anexos 1 e 6
- RGF 2º quadrimestre 2026 (Resolução Sefaz nº 3.525), Anexos 1, 2 e 4
- RREO 3º bimestre 2026, resultado primário até junho
- RGF 1º quadrimestre 2026, despesa com pessoal em abril
- Diário Oficial de MS, 29/09/2026
- Portal da Transparência MS, Responsabilidade Fiscal
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